Entre Fragmentos

“La vida del hombre como comentario de un hermético e inconcluso poema" V.N.

White Noise en Coimbra, entre Don Dinis y Don DeLillo


IMAG1849Si me preguntasen qué es el cortejo en la Quiema das fitas podría decir que es un desfile que comienza en la estatua de Don Dinis con los estudiantes que se gradúan quemando sus insignias académicas. Podría decir que el desfile avanza por las colinas de la Alta hacia la Baixa con decenas de carrozas elaboradamente decoradas, cada una con el color de sus respectivas facultades, llevando pancartas con críticas irónicas en alusión a ciertos maestros, el sistema educativo, eventos y líderes nacionales. Podría decir que el desfile se compone de miles de estudiantes que beben hasta vomitar ante la mirada aprobadora de la familia. Podría decir todo eso y también que el primer domingo de la Queima en Coimbra me recuerda algunas de las primeras líneas de White Noise de Don DeLillo.

Los estudiantes se saludan unos a otros con cómicos gritos y ademanes que parecen sugerir un estado de intoxicación alcohólica. Como de costumbre, han pasado un verano saturado de pérfidos placeres. Los padres, deslumbrados por el sol, permanecen cerca de sus automóviles contemplando imágenes de sí mismos por doquier. Muestran todos un concienzudo bronceado, rostros bien arreglados y expresiones forzadas. Experimentan una sensación de renovación, de reconocimiento común. Las mujeres se mantienen atentas y despiertas, esbeltas por su régimen, recordando siempre los nombres de las personas. Sus esposos parecen satisfechos con limitarse a calcular el tiempo, distantes pero cordiales, realizados en su paternidad, rezumando la seguridad de encontrarse protegidos por una enorme variedad de pólizas de seguros. Más que cualquier otra cosa que pudieran hacer a lo largo del año, más que cualquier ley o liturgia formal, era aquella reunión de vehículos lo que revelaba a los progenitores que entre todos formaban una colección de ciudadanos que compartían una misma opinión; que eran un pueblo, una nación.

El ruido de fondo del desfile se cuela por la ventana de mi cuarto y me arruma mientras intento trabajar. Salgo de las cuatro paredes que sostienen la arquitectura de mi nombre y me asomo a la realidad para retratar aquello que ya había visto a través de DeLillo y que se repite en todas partes del mundo occidental. La realidad se amolda como un guante al prejuicio que había tejido y veo a “padres deslumbrados por el sol”, “distantes pero cordiales, realizados en su paternidad” mientras sus hijos hacen gala de la embriaguez que a mi se me antoja como una forma de llenar vacíos. Es aquí, pero podría ser en cualquier parte.

Sé que puedo sonar arrogante o que la seriedad puede estar tamizando mi experiencia, pero me cuesta comulgar con una celebración centenaria reconstruida para ser consumida, hecha producto, marca, signo de los tiempos del que es difícil escapar. No querer consumir es quedarse en la periferia, una vez más, y contemplar a través de los ventanales de una casa antigua deseando que toda esa energía sirviese para algo más que el recuerdo borroso de una semana de borrachera y de slogans diseñados a medida, customizados entre la ceguera ante un presente agónico y un futuro yermo.

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3 comentarios el “White Noise en Coimbra, entre Don Dinis y Don DeLillo

  1. anibal frias
    mayo 10, 2013

    A Queima das Fitas de Coimbra surgindo da tua “narrativa”, que mistura (com beleza) subjetivismo e literatura, surge com outra cara quando se olha para ela desde o campo antropólogico, e numa perspectiva histórica. Dediquei o meu doutoramento as culturas académicas de Coimbra. Resumo aqui um fenómeno muito complexo. Como tudo, se repararmos bem. Onde as sensibilidades comuns hoje aceptizadas vêem apenas “excessos” e futilidades de estudantes, onde alguns medias a procura de sensacionalismo retêm só uma “semana de borracheira” e de violências (que existem, todavia), ficando uns e outros ao nível do moralismo e do fenomenismo (ou do “transcendantalismo” elitista”…), na verdade, estes “excessos” integram, do ponto de vista antropológico, uma lógica coerente de “potlach”, i.e. uma experiência-limite coletiva codificada no seu “desregulamento” mesmo. Um exemplo “comum” disso é o carnaval, com o seu cortejo de contestações ritualisadas dos poderes, sobreconsumismo, mascáras, poder regenerador da fugeira… A Q das F é uma prática ritualistico-festiva de consumo (e não só, de práticas culturais, desportitas, etc.), que ocorre dentro de um processo espacio-temporal de rito de passagem, que vai desde a integração na universidade até a formatura, do caloiro/novato ao “doutor”. Este tipo de cortejo académico, festivo e irreverencioso, se encontra por todo lado, desde a Espanha à Argentina, do Brasil à Italia. Aliás, este cortejo de estudantes é o exato inverso, com a desordem, o barulho, os disparatos, do cortejo solene dos professores/reitor de início de ano, aquando da abertura cerimonial da universidade, que segue por odem de antiguidade das faculdades, em procissão e em silêncio, com sus trajes académicos identitários, fazendo-se acompanhar com a música solene da charamela /chirimías em Salamanca. Refleta também, invertindo-os, os cortejos aristocratas ou religiosos (procissões) do Antigo Regime, as “entras solenes”. Espelho asimetrico até na presença dos “zés perreira” no cortejo estudantil que, com seus tambores e a bandeira da Associação da Academia de Coimbra, abre o desfile, e espelham com graça a orquestra “militar” da universidade. Até finais do séc. XVIII/início do séc. XIX, os doutoramentos, tanto em Espanha como em Portugal, eram festejados coletivamente com despesas ostentatórias (banquetes, corrida de touros, luvas brancas, doçuras – ainda existente em Salamanca e Coimbra). Estas práticas distintivas serviam/servem para assinalar PUBLICAMENTE a mudança de estatuto social. Daí a presença do público nas ruas, nomeadamente os familíares. A hipermercadorização da Queima das Fitas tambémintroduziu muta novidade na estrutura festivo-ritual do fenoméno tornado “evento” comercial e turístico, desde os anos 80 (com o “restauro da Praxe/Novatadas, após seu suspenso no fim do salazarismo). Chegar seletivamente a “doutor”, num país rural e ainda “iletrado”, foi e é uma “honra”. Mesmo se muito mudou com o desempredo dos licenciados e a “democratização do acesso à universidade… Por traz das “brincadeiras” e dos “excessos”, há finalmente umas coisas levadas muito a sério e perdura uma ordem social respeitada… No séc. XVI o doutoramento era chamado “triunfo” (dai as portas em forma de Arcos de triunfo, cf. a Porta Férrea na UC), os festejos, etc.. Espelho dos professores doutores, até nos apelidos contrastivos “caloiro”/”doutor” para designar, respetivamente, os novatos e os estudantes já com anos de universidade, estes dotados de uma função “pedagógica” sobre aqueles.
    E lembra o Fernando Pessoa… Na revistinha “caseira” O Palrador, num nº 5 de Março 1902, um dos proto-heterónimos se chama, numa síntese opositiva quase oximórica, “Dr. Caloiro”; outra personagem tem a alcunha de “Pad Zé” (talvez um impréstimo ao alcunha de um famoso estudante Boémio da UC, um dos fundadores do Cortejo da Latada, em 1899… que deu origem a… Queima das Fitas). E, num conto de 1903, Os Rapazes de Barrowby, FP encena umas praxes/novatadas, talvez com reminiscências ou ainda experiências pessoais de Durban. Nele, os estudantes mais antigos “insultam” ritualmente os mais “novos”, indo buscar “defeitos” fisiognomónicos imaginários, ligando o físico e a mente. Este facto não encontra apenas explicação nas leituras psicopatológicas do FP, ou nos medos dele, mas sim reinviam para uma longa tradição, onde se misturam a História das culturas escolares e a história pessoal do Pessoa. Pois, já na Idade Média os novatos, chamados na Alma Mater Sorbonne de “Béjaune” (de bec/bico + jaune/amarelo, cor-símbolo depreciativa da infância, e, daí, da ignorância, para quem é situado, ritualmente, nos limites da humanidade e das Humanidades… ).
    Com a atual profunda crise (crises) em Portugal, e não só, talvez se possa comprehender que muitos dos jovens procurem esquecer, pelo menos durante uma semana, que suas vidas que principiam são sem futuro, tomando por isso uns copos/unas copas…

  2. Diego Giménez
    mayo 10, 2013

    Obrigado pelo comentário, Anibal. O meu post é uma impressão, não um estudo. Em qualquer caso, a crise económica e resultado duma crise moral. Não chama a atenção a festa, senão que no fiquem a mesma intensidade em outras coisas. Acho que é um fracasso social… Abraço

  3. Pingback: Cultura en la adversidad - Revista de Letras

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Esta entrada fue publicada en mayo 5, 2013 por en Notas y etiquetada con , , , .

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De la misma manera que el narrador de Pálido fuego apuntaba: nuestro poeta sugiere aquí que la vida humana no es sino una serie de notas a pie de página de una vasta y oscura obra maestra inconclusa,Entre Fragmentos nace como un espacio de reflexión interdisciplinar. Diego Giménez.
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